29 de abril de 2010
CERTOS DIAS
14 de abril de 2010
DISSE
Disse que nasciam asas nos Homens
Disse que o Céu era o início
Disse que a verdade não era escrita
Disse que os sonhos são realidade
E a ilusão a mentira do cobarde
Disse que os gestos nunca se perdem
Que são diamantes enaltecidos de ternura
Disse que a luz é presença
E a presença uma certeza
Disse que tudo é possível
Que a crença o compensa
Nos dias cinzentos e vagabundos
Disse que a lua é bola
Com que se brinca no jardim
Disse e disse e voltou a dizer
Até perder o eco das palavras que disse...
7 de março de 2010
Devolve
Pinta a Lua na tua mão,
Com dulcíssimo amor.
Pinta de cor a oração,
Desfarda toda a dor.
Não fujas pelo postigo.
Embriaga todo e qualquer amigo.
De soslaio, com aroma a mar,
Vem sem fio, sem escora… voar!
Não aufiras mais angustias.
Não acentues mais tristezas.
Pára! Ouve as partituras
Vagas das redondezas.
E se por fim borbulhento te soou,
O relógio servo e coloquial,
Não pares no que restou,
Renova e devolve-te vestal!
31 de janeiro de 2010
MANHÃ

Manhã submersa na bruma…
Ofuscante de oiro azul.
Afirmante promessa de um Adeus sem fim!
Aqui te vejo na Escuridão da luz,
Aqui te ouço no Olimpo da voz.
Onde te revelas? Onde te abres?
E a procura desperta um sol de Inverno.
Há quanto tempo procuro…
Ultrapassar as barreiras de Ferro?
Manhã submersa, escondida nos dias…
Revela-me o outro lado da Face.
Mostra-me a insensatez do momento,
Mostra-te nua, mostra-te fiel!
Manhã submersa na bruma, quem és?
Pauta de sons ocos, deprimentes,
Melodia de desespero no Fado da morte…
Manhã submersa em rios de negra cor…
Cavalos brancos amarrados ao céu.
Manhã submersa na bruma onde te vi?
Onde procurei em ti o dourado sonho?
Páginas de desventura que um dia escrevi,
Manto pobre em que me cobri…
E a manhã assim permanece,
Oculta em si, dona do mundo!
Passageira do Homem…
Manhã submersa na bruma…
Ofuscante de oiro azul.
26 de dezembro de 2009
NÃO NO SEI
Se vivo de palavras como artificie? Não no sei…
Se bebo do mel das dores as flores? Não no sei…
Se vigio a tormenta como mãe? Não no sei…
Se padeço dos males do pavor? Não no sei…
Se cambaleio nas rotundas da vida? Não no sei…
Se enalteço a noite em prata despida de minhas lágrimas? Não no sei…
Se parto ou fico, se ficou ou parto? Não no sei…
Se humedeço as vielas da razão com as mãos? Não no sei…
Se arranco ao fugazes momentos? Não no sei…
Sei que respiro e que nas artérias me corre sangue
Vermelho, espesso e frenético a cada bombear do coração!
8 de novembro de 2009
VULTO
Estás aí?
Mais um pontapé nas latas
As tertúlias da desdita também contam
Não fosse o acaso companheiro da jorna.
Estás aí?
Contas, dois, um e mais uma bitola de cinco
Que os passos também se somam nos dias trancados
Imberbe masmorra de um Homem.
Estás aí?
Passam silenciosos os pássaros
Voos rasantes entre o entulho
Do desadorne do tempo.
Estás ai?
Falo como quem mendiga
O pão de um filho faminto
Nas horas quebradas do desdém.
Estás ai?
De mim em ti, de ti em nada
Como desassossego assolapado
No restolho do inquieto.
Estás ai?
È manhã... estou cansado
Os olhos brilham mas a luz quedou-se
Talvez… depois… porque não…
Estás ai?
23 de outubro de 2009
DESALINHO

Existe um desalinho completo.
Uma verdade inscrita.
Um poço algo repleto,
De uma repugnância transcrita.
Foram citados deuses vãos,
Beldades tingidas de certezas,
Mas duas foram as limpezas,
A do rácio e a das mãos.
Procura-se em ciência o concreto,
Respostas em todas as questões,
Mas esqueceram pendente no tecto,
A insensata leveza das razões!
27 de julho de 2009
FAZ-TE AO MAR
Oscila meu vão pudor,
Por entre as vagas dessa barqueta,
Oscila meu traje de amador,
E faz da vida uma corveta.
Sonhos! Não te esqueças de os embarcar!
Pois que, levando uníssono o que és,
De viés – porto algum se fiará em te atracar!
Manso! Não ouses balbuciar ao vento!
E verás quão fraca será a necessidade.
Sim, vais a tempo! Desentranha a vaidade!
Mas se o mar te negar,
A companhia do par…
Sempre poderás navegar,
Na réstia levada do ar.
22 de julho de 2009
O POETA

O Poeta... quem é? O que é?
Pode ser um rosto entre mil, uma forma de ser entre muitas, uma panóplia de sentidos, ou, um eco de razão.
Não é fácil descrever o Poeta, não é fácil chegar à tradução por palavras de quem já em si é palavra e contudo, mais que palavra.
Quedo-me ante a falta de arte e engenho para o definir e abraço esse primordial elo, o elo da ligação do comum dos mortais com esse ser que trespassa tempos e universos numa valsa de sentidos.
O mundo hoje já não pertence aos loucos, pertence à razão do lucro … quebrantaram-se as asas que nos permitiam viver entre os mundos, amarrados ficámos às grilhetas da posse.
Entristece-me que este ser, seja tão menosprezado nos dias que correm… porque o Poeta não saber ser pressa, solução instantânea ou cura milagrosa para a inércia do homens, não saber ser procura barata e não sabe ser top de uma qualquer livraria…
Ele não medeia os dias pelo ganho, pela riqueza dos homens e a volúpia dos corpos, ele vai mais longe e cria o impossível, desafia os deuses e bebe do mais fino néctar do imaginário.
Só quem quer mais da vida, quem anseia por algo mais profundo e existencial que um Mercedes na garagem, que uma conta bancária num paraíso fiscal, consegue hoje pegar num livro de poesia… e sentir esse elo entre o mundo dos homens e o divino.
Para onde vamos despidos de poesia? Que mares navegaremos com barcos de ferro e âncoras de chumbo?
Que ares nos será possível voar com as asas adornadas de ouro?
9 de julho de 2009
A BATUTA DOS HÁBITOS MARCHETADOS

Certa vez, na Rússia, ouvi tocar Mozart numa fábrica. Escrevi a esse respeito. Recebi duzentas cartas insultuosas. Não quero mal aos que preferem um reles café-concerto. Nenhuma outra harmonia eles conhecem. Mas abomino o dono do café-concerto. Não gosto que degradem os homens.”
Antoine de Saint-Exupéry, in 'Terra dos Homens' – Publicações Europa-América
Poucos ocupam um segundo do seu pensamento a pensar o quanto das suas vida é tocada pela batuta de um outro maestro, que não eles próprios. A resposta é sempre impulsionada pelo sentido de posse, logo, redunda num taxativo – em mim ninguém manda sem ser eu. Quão ilusória é esta afirmação.
Mesmo, os que de mais livre são no pensamento, sabem que há sempre uma batuta de um outro maestro a pautar-lhes os hábitos, seja na roupa que escolhem, por vezes, para mesura social, seja até, nas melodias que permitem que lhes entrem nos ouvidos.
Afinal é isso mesmo que torna o hábito, a repetição pautada de um mesmo acto. E, mal algum existe quer no hábito, quer na batuta do maestro.
A questão encontra-se então, na escolha do hábito e na do maestro. É que, á leia de se pretender pertencer a um qualquer grupo, afinal todos os homens anseiam a pertença, quebram-se hábitos inatos e redunda-se, exclusivamente, á batuta do maestro escolhido. É aqui que está o erro e o cerne de toda a questão.
É que uma vez escolhido o maestro, mais nada se acrescenta. Perdido o maestro, desmorona-se a orquestra, questiona-se o sentido e o alcance da vida, questiona-se o próprio eu e a mesura dos dias, abertas ficam as portas da desordem.
Saint-Exupéry toca um outro acorde, o acorde do maestro e não o da orquestra. Desculpa a orquestra, por ela nada mais conhecer que a batuta do seu maestro e culpa o maestro por apenas marchetar uma única melodia.
Há diferenças entre o que digo e Saint-Exupéry? Há primeira vista parece que sim, eu falo de alhos e ele de bugalhos, contudo não existe diferença mas e apenas, diferentes prismas de um mesmo objecto, se repararmos a culpa tem de ser dividida, tanto é culpa da orquestra só seguir a batuta do seu maestro, como é culpa do maestro só marchetar uma melodia á sua orquestra.
É claro que, deve o maestro proporcionar novas melodias á sua orquestra mas, não menos verdade é que deve a orquestra seguir novos sons por sua própria vontade. O hábito pode ter criação externa, mas so é perpetuado por aquele que, continuamente, o pratica.
8 de julho de 2009
VOO

Pode ser…
Que exista mais um sentido,
Mais um elo, um fuso, a multidão
Pode ser…
Uma cor sem fundo num sonho
Um sabor fendido de emoção
Pode ser…
Que amanhã se diga não e
Se atravesse a lua com a palma da mão
Pode ser…
Que se diga adeus assim num limiar
E se selem todas as comportas
Pode ser…
Que se soltem as amarras
E se quebrantem vagas
Pode ser…
Dois em um, um em três
Mais tostões de um e dois de dez
Pode ser…
Que se construam os elos
Que se forcem rupturas
E se atravessem oceanos
Pode ser…
Pode sempre ser…
Mais
Pode ser…
Céu perdido nos vendavais
Um dia de Homem
Tudo o que o se quer e alcança
Livre de entulhos e balança
Pode ser…
Se para tanto á força de ser
Asas de par em par
Partirem do SE para voar.
24 de junho de 2009
DEVANEIOS
22 de junho de 2009
A DOCE ILUSÃO DA EMANCIPAÇÃO

E é intencional porque, pretendo aqui questionar a emancipação e dentro desta a das mulheres - reparem que eu digo questionar e não criar entendimentos, ou, rotular a posição das mulheres, quer no mundo, quer na actual sociedade. De forma alguma tenciono fazer julgamentos porque, para tal teria de ser empossada de juízos e eu quero-me livre, arreada das conjecturas dos outros.
Sou uma crente da pergunta e por conseguinte, acredito que ela, em sim mesma, é mais do que meio caminho para a resposta; por isso, à criva da censura do orgulho feminino pergunto: o que é isso da emancipação das mulheres?
Não quero discorrer numa evolução histórica sobre a ascensão da mulher na sociedade ou na política, isso é transmutar por completo o objecto da minha pergunta, que se atentarmos bem, é simples e directa.
O que é que é, efectivamente, a emancipação da mulher?
Dir-se-á que é a ocupação dos mesmos afazeres/tarefas que os homens?
Dir-se-á que é a utilização da mesma força/intelecto que os homens?
Dir-se-á que é a utilização da mesma pose social que os homens?
Antes de, à laia do impulso, se responder a estas perguntas analisemos um pouco o significado da palavra emancipação.
A palavra emancipação tem como significado liberdade, independência, autonomia pode-se descrever sucintamente como: estado daquele que, independente de toda e qualquer tutela, pode administrar os seus bens livremente. Assim sendo, emancipado é todo aquele que no pleno uso das suas faculdades e bens gere a sua vida.
Ora bem, se assim é a emancipação escrutinada à luz de um qualquer dicionário de português, nada tem a ver com homens; contudo, a emancipação das mulheres tem tudo a ver com homens.
Pergunte-se a qualquer mulher o que entende ela por emancipação e tão certo como eu ser eu, um homem virá à baila. O porquê da emancipação das mulheres ter a ver com os homens é uma pergunta para a qual, singelamente, apenas adivinho uma resposta.
Poderia conjecturar uma daquelas respostas impregnadas de recalcamentos do passado em que os homens se sobrelevavam em independência económica, poder físico e social sobre as mulheres, mas não creio que seja, em concreto, essa a resposta, talvez servisse no Sec. XVIII… mas nos dias de hoje, não tem grande assentamento.
Não, a subjugação das mulheres, deriva não do facto de ela ter sido (ou ainda o ser) considerada inferior aos homens, mas de ela ser o seu objecto de prazer.
Face a este acréscimo, atentemos ao texto que transcrevo de Tolstoi que em 1889 descreve o que considera ser a real escravatura das mulheres e comparemo-lo aos dias de hoje, há diferenças?
Libertou-se a mulher de ser o objecto de prazer dos homens? Pretendeu ela alguma vez deixar de ser esse objecto?
Assim sendo, repetindo-me pergunto: o que é isso da emancipação das mulheres?
Sei que serei trucidada pelas mulheres e por ventura acaridada pelos homens por este texto, mas de bom grado aceito os punhais se para tanto a minha pergunta for escutada.
16 de junho de 2009
OS SONHOS E OS NÚMEROS
Assim, se lhes disserem: “A prova de que o principezinho existiu é que ele era encantador, é que ele se ria e queria uma ovelha. Querer uma ovelha é a prova de que existe”, as pessoas grandes encolhem os ombros e chamam-vos crianças! Mas se lhes disserem: “O planeta donde ele vinha era o asteróide B 612”, as pessoas grandes ficam logo convencidas e não se põem a fazer mais perguntas. As pessoas grandes são assim. Não vale a pena zangarmo-nos com elas. As crianças têm de ser muito indulgentes para as pessoas grandes.
Mas nós, nós que entendemos a vida, claro que nos estamos bem nas tintas para os números! Eu gostava era de ter começado esta história como um conto de fadas. Assim:
“Era uma vez um principezinho que vivia num planeta pouco maior do que ele e precisava de um amigo…” Para quem entende a vida, era de certeza um começo bem mais verosímil.»
Antoine de Saint-Exupéry in “O Principezinho” – Editora Caravela – 11.ª Edição
Há dias em que, por força da memória, ou, das reminiscências da infância, recordamos os nossos sonhos de crianças e muitas vezes olhamos para trás e renasce em nós a vontade de recuar no tempo, até aquele local em que acreditávamos que tudo era possível.
O que mudou? O que é que nos fez desiludir tanto, ao ponto de nos tornarmos cegos e descrentes?
Será que o crescimento nos retirou a capacidade de sonhar? Ou, passámos a ver os sonhos pelo prisma dos números, da estatística, do ganho, do dispêndio e da probabilidade?
Nos dias que correm é quase ridículo falar-se em algo, explicar-se algo ou até mesmo sentir-se algo, sem que esse algo tenha um número, uma qualidade quantitativa em suma, uma mais-valia.
Em crianças dizia-mos simplesmente: “porque sim”, “porque quero”, “porque tenho vontade”, “porque sonho”, “porque quero ver”, “porque quero ser”; em adultos dizemos: “será que devo?”, “haverá necessidade?”, “será útil?”, “valerá a pena?”
Se o crescimento é isto, então estamos todos a ver as coisas pelo prisma errado porque, se em crianças afirmamos e sabemos o que queremos, adicionando novos valores a cada nova experiência, em adultos questionamos, quedamo-nos ante as “n” possibilidades existentes e não escolhemos nenhuma, logo não há lucro.
A verdade é que, desde pequenos levamos com uma lavagem cerebral sobre o que tem valor e o que não tem, sobre o que podemos e não podemos fazer. Contudo, enquanto aprendemos a andar, enquanto tentamos desbravar o desconhecido, a lavagem não faz muitos danos, porque entra ao mesmo tempo para o nosso cérebro uma boa quantidade de informação nova oriunda das nossas experiências e aventuras. O problema surge, essencialmente, quando deixamos de descobrir, de experimentar e começamos a assentar, aí começa a lavagem do “não podes”, “não deves”, “não sonhes”, “não imagines”, “não vale a pena”, “não è para ti”, “não consegues”, “não é real” e por aí adiante e, como diz o ditado: água mole em pedra dura tanto bate até que fura, neste caso tantos são os “nãos” que ouvimos por todo o lado, que nos dizem por todo lado que como papagaios passamos a acreditar em “não” e assim cimentamos a nossa descrença, quer nos sonhos, quer na vida, quer em nós mesmos.
E depois… os números, eles passam a ser a única coisa em que acreditamos, porque, são visíveis aos nossos olhos e possuem a capacidade de que com eles se poderem fazer inúmeras operações matemáticas. Cimentamos crenças em supostas realidades e desacreditamos tudo quanto não podemos somar, subtrair ou dividir ou multiplicar.
Já repararam que o nosso nascimento, só o é dado como adquirido, quando nos colocam a data de nascimento (portanto uns números) e a nossa morte só se torna real quando nos colocam mais um número, mais que não seja o da campa onde nos colocam. Entretanto sobre o fulano X e a vida do fulano X pouco ou nada há a dizer.
É isto mesmo que queremos ser, números? Ou como Saint-Exupéry tão bem descreve no seu Principezinho «Mas nós, nós que entendemos a vida, claro que nos estamos bem nas tintas para os números! Eu gostava era de ter começado esta história como um conto de fadas. Assim:
“Era uma vez um principezinho que vivia num planeta pouco maior do que ele e precisava de um amigo…” Para quem entende a vida, era de certeza um começo bem mais verosímil.»
Em suma: queremos ser números ou queremos ser vida? Há só uma forma de olhar para trás e sentirmos e sabermos que tudo foi possível e que os nossos sonhos não passaram de meros números, todos sabemos qual é essa forma... sim todos sabemos qual é!
5 de junho de 2009
QUANTO VALES?

Séneca, in “Cartas a Lucílio”. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. 1991
Gosto de Séneca, demonstram os seus escritos, ou o que deles sobreviveu no tempo, uma assertividade extraordinária e um profundo conhecimento do Homem.
Reparem que, falamos de um Homem que viveu ao tempo de Cláudio e que foi preceptor de Nero (mais precisamente, viveu entre 4 AC e 65 DC) contudo, a suas palavras são tão propícias e reais como se acabassem de ser escritas para os tempos de hoje.
Digo em jeito meio divertido, que nada de novo nasce ou, é criado, apenas andamos sempre há volta do mesmo, corram que tempos correrem.
Ponderando um pouco mais sobre o assunto, reparo que as questões redundam sempre na riqueza, não aquela que provém do Homem, mas aquela que o ornamenta.
Quanto vales? È a questão, e a sua resposta converte-se numa taxatividade frívola, ou seja, vales o que possuis.
Não é de hoje que à matéria é dado um maior valor do que ao Homem que a cria, e este texto de Séneca é demonstrativo disso mesmo. Em suma, passaram os tempos, o planeta envelheceu e o Homem permaneceu estático.
Continuamos, como há séculos a fugir das questões, continuamos donos e senhores de verdades, muitas das quais nem sabemos de onde provêem e, continuamos perdidos no egocentrismo de nós mesmos.
Este é sem dúvida um caso em que, de nada nos serviu a experiência e da mesma forma, de tão pouco nos serviu a razão, porquê? Simples, continuamos a dar mais valor ao cofre do que ao seu conteúdo.
31 de maio de 2009
SER POETA
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)
Tantas foram as vezes que tentei descrever o Poeta, esse, que vive do imaginário sonhador, esse, que da palavra faz arte, esse, que com palavras nos arranca dores nunca sentidas, que nos revolve as entranhas e nos beija como amante …
E outras tantas vezes me quedei…
E depois, leio este poema de Florbela, mergulho nos infinitos do sentir e tudo se completa… ante a imperícia de definir o Poeta, resta-me… singelamente, senti-lo.
28 de maio de 2009
SINONÍMIA

Dispare de aço é o milhafre.
De ceifas os caudais.
Os acentos das saturnais,
Mais não postulam que um cafre.
Zigoto que será doado,
Ante a cúpula vestal.
Não será preciso ser amado,
Para Apolo perfilar no Carnaval.
Enlouqueceu-se o ímpio ceder,
Mas não foi por não vencer,
Que ante mim se postulou,
Aquele que acreditou.
Honrai a toga até ao fim!
Honrai os deuses por mim!
De Diana esperei a Lança,
De Baco o Vinho para a matança.
27 de maio de 2009
CAVALGADA

Já rebentei de correr
Sete cavalos a fio.
O primeiro era cinzento
Com sonhos de água sem fundo
E cor do norte o segundo
Com ferraduras de prata.
O terceiro era um mistério
E o quarto cor de agonia.
O quinto, de olhos em brasa,
Era só prata e espanto.
O sexto não se sabia
Se era cavalo, se vento.
Corria o sétimo tanto
Que nem a cor se lhe via.
Quanto mais ando mais meço
As distâncias que há em mim
Cada desejo é um fim
E cada fim um começo.
Armindo Rodrigues
Pode-se dizer que sente perda em cada fim, mas isso, é parte do crescimento...
Em cada fim há um começo e em cada começo um espraiar do ser e, irmãmente, uma evolução da coluna vertebral, pois ela não está nem completa, nem enformada à nascença e muito menos se finda com o crescimento físico.
Recusam-se tantos a crescer, com medo de um envelhecimento qualquer, com medo de se perder um “je ne sais quoi”… crescer não é perder, nem envelhecer, só assim o é quando se recusa, esse doce mel do abrir das asas, quando se estagna e se vive num limbo que não é nem presente, nem passado, nem futuro!
É preciso saber medir as distâncias que existem em nós… é preciso aprender a soltar e a agarrar as rédeas.
21 de maio de 2009
O ENGANO DA BONDADE
"Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos.
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra."
Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" – texto retirado do Citador, http://www.citador.pt
A bondade… que palavra é esta? Que significa ela no meio do turbilhão egocêntrico dos dias de hoje?
O que representa ela no, e, para o homem?
Eu sei, mais uma panóplia de interrogações, quando o que se quer são respostas, certo?
A minha preocupação não é essa, porque o mais importante não é a resposta, mas o caminho que nos conduz a ela e, indubitavelmente, o porquê da pergunta.
Sinto que cada vez mais, o ser humano tem menos questões de fundo e procura muito pouco saber o que é, de onde vem e para onde vai, eis o motivo das minhas perguntas.
Obviamente, todos diremos, eu sei quem sou, sei de onde vim, sei onde estou e sei para onde vou e obviamente diremos isso, fincados na certeza, na nossa concreta certeza.
Esse é o maior dos erros, a certeza, e é-o porque nos impede de percorrer novos prismas de um mesmo objecto.
Esse é também, o mais notório facto de que não somos bondosos, ou de que, à capa de uma bondade ilusória, representamos ser, sem nunca o sermos.
Acordemos então do sono da Bela Adormecida, deixemos de lado os ais de Madalena Arrependida e encaremos de frente o que queremos; a bondade não reside numa mão pousada sobre o ombro, ou, num olhar de piedade, mas na nudez de nós para connosco próprios, sem o ardil dos ses, liames da nossa mentira.
10 de maio de 2009
A PERSEVERANÇA E A PRESSA

Tudo muito à pressa, tudo muito para ontem, tudo e um vazio de nada, porque a pressa não deixa tempo para mais.
Olho no fundo dos olhos das pessoas com que me cruzo e deparo-me com demasiada neblina, demasiado fervilhar, um remoinho de sentidos e uma panóplia de razões, um vintém de mil, mas de concreto, de acerto, um vazio de nada.
Os corações estão ao rubro, a alma para além do tudo, traduções dessa agitação ilusória de tudo se querer na cadência de um segundo.
Os ensinamentos do ontem, de quem viveu compasso a compasso, de quem cimentou os seus alicerces à custa da experiência e da perseverança, com tempo e sem pressas, são colocados na gaveta, de nada servem, inúteis como as pedras da calçada.
Porque, não é o que os de hoje querem, porque, não dão respostas de imediato, porque, não são soluções instantâneas como a comida congelada e pronta a fazer em 10 minutos no microondas.
Esta medida que hoje em dia se usa, de apenas ter utilidade o que acertar na mouche, faz com que se sinta no transeunte com que nos deparamos em todo e qualquer lugar, um gélido cumprimentar de competidor em busca do que de pressa o levará ao pódio.
Daí que, aos de hoje, a perseverança nada diga. Como é que se poderá explicar à pressa, que é na busca diária, no esforço contínuo, na construção lenta mas convicta, na queda, no erro… enfim, na aprendizagem e na laboração incessante de nós próprios, que se atingem os fins, quando com a pressa já eles partiram?
Como é que é possível, aos de hoje, compreender as palavras, dos de ontem, como por exemplo, estas de Confúcio?






