25 de julho de 2011

EPOPEIA DO HUMANO


(Eugène-Henri-Paul Gaugin : Mahana no Atua  - 1894.)




Busco em ti a metáfora de verdades inverosímeis.

Há como que uma constatação fatídica do sempre igual

e eu descrente nas promessas dos deuses procuro em ti

a derradeira centelha do diverso, do colorido, do abismal enlace incógnito,

tal qual, libelinha frenética no imenso azul do céu.



Em consciente renúncia da razão, verto por todo o conhecido

ácido em proporções de mar na esperança de te sentir nu

dessa argamassa pungida dos tempos, dos homens e dos espelhos.



Não entrarão na epopeia números ou planos de arquitecto,

nem poderão as estrelas servir de guia a esta campanha.

Pois sobre mim derramei a última das mais firmes vontades,

a de chegar a ti, Homem ,escorrido do ventre e limpo de pulmões,

a quem se quedaram promessas de eternidade.

17 de julho de 2011

FANTASMAS


(AL BERTO  "Horto de Incêncio" - 3.ª edição - Dezembro de 2000. Fotografia da capa: Paulo Nozolino - Editora Assíro & Alvim)



Fantasmas… os da memória, ou, talvez os do coração, nunca os da razão. Fantasmas… recordo-me de que sempre amei a escrita, sem ela esfuma-se qualquer essência do que sou, e no entanto, nos meus fantasmas aparecem personagens que sempre disseram, “não o caminho não pode ser por aí, a arte das palavras é para os Grandes, e tu não serás um deles.” É curioso que se aniquilem os sonhos dos outros com base na própria imagem do fracasso e do medo, é curioso que de todas as heranças que se queiram transmitir, se prefira deixar os fantasmas, a um abraço forte…


Divago… nada disto tem a ver com o poema de Al Berto, nem com a escrita dele, mas só o tema deste poema faz-me voar, quem sabe em voo de espanto dos fantasmas…


O meu contacto com Al Berto, aconteceu por mero acaso, num banco da faculdade no último ano do curso de direito, onde um colega trazia debaixo do braço o Medo de Al Berto, para defender a sua nota de filosofia do direito. Pensei: “É louco! O que é que este livro tem a ver com a filosofia do direito?”. Mas - e há sempre um mas – a vida é dos loucos, dos verdadeiramente loucos que dissecam até às entranhas aquilo em que acreditam.


E em comunhão com os meus fantasmas aqui fica Al Berto, e o que ele espera não são fantasmas e encontra-se transcrito nas suas próprias palavras no final do poema.



fantasmas

bateram à porta – não abriste

estavas a convocar nesse instante a brancura,

dos dados por lançar e o corvo do sr. poe mais

o maléfico negrume dos mares de melville e

os passos em redor do andarilho etíope e

as mulheres da patagónia que estão sentadas

ao fim da tarde

à beira de insondáveis glaciares


seguias absorto o percurso daquele que comprava

revistas tabaco souvenirs e via os comboios

sumirem-se na gare de Munique – mais a rua onde

te encontro e te perco – rapaz

a quem se esqueceram de dizer que tinha um corpo

de papel bom para amachucar com os dentes


é verdade – bateram à porta

mas não podias abrir

nesta casa só sobrevive a memória turva

dos poemas amados - mais ninguém mais nada

além da parede de lodo e da caixa de sapatos

cheia de sílabas preciosas – e de uma mesa pequena

com um albatroz empalhado para te vigiar a alma


a um canto da sala o cigarro continua a arder

na ponta dos dedos do teu retrato escondido

atrás do sofá – virado para a parede

como tu

coberto de bolor de sustos e de aborrecimento

“Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório («Horto de Incêndio»). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.” – Al Berto

13 de junho de 2011

ESCOLHER PARA DISFRUTAR

(Imagem retirada aqui)


As escolhas são um dos calcanhares de Aquíles do Homem. Numa panóplia de "ses" é sempre dificíl seguir um caminho, especialmente, quando todos se querem e nenhum se alcança e isto porque, fieis á nossa condição, nos sentamos no meio da praça em profunda espera meditativa do... nada.

Saint-Exupéry é um daqueles homens raros, de espinha dorsal bem contruída, deixou aos homens mais rotas do que as que ele próprio percorreu enquanto piloto.

A Cidadela é um livro extrordinário, simples e contudo vasto na sua humanidade meditativa e acima de tudo vivencidada, aqui fica um trecho:

"A angústia invade quer o inquieto, exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga, quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu, quer a mulher apaixonada pelo amor, mas incapaz de devir por não saber escolher. Eles bem sabem que eu os curaria da angústia se lhes permitisse esse dom que exige sacrifícios e escolha e esquecimento do universo. Porque determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela. É o que acontece com o objecto da troca. E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa, demonstra com isso que prefere o nada à criação."

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"  - o texto supra foi retirado do Citador

4 de junho de 2011

QUE SABEMOS NÓS? NADA.



(Imagem fotografada e trabalhada pela gestora do blogue.)


Fernando Pessoa é um Universo com Universos dentro. Homem da razão a quem o sentido ecoa como um problema metafísico.

Para todo o resto, ficam as suas palavras sempre auto-suficientes e sem necessidade de tradução.

Os excertos que se transcrevem foram retirados daqui.


Que sabemos nós? Nada. O mistério cerca nos e penetra nos. A religião com suas infantilidades, a metafísica idealista com os seus delírios são ainda assim superiores ao materialismo porque nelas há a intuição do mistério que o materialismo não tem. Esta falta estigmatiza o de falso.

*

De todas as nossas faculdades a razão é a mais alta, porque é a única que a si é suficiente (self sufficient) .

*

Há quem queira dizer: o problema: o homem é imortal resolve se por ter sido lembrado: é falso.

*

Os Postulados do Racionalismo.

Existência de Deus.

1. Há um mistério.

Outra busca metafísica: que relação tem esse mistério com o mundo [?]

2. O mundo que vemos não mostra essa verdade: manifesta o mistério silentemente. Como diz Pascal: «La nature ne montre pas Dieu; elle le cache.» Não; a natureza mostra e esconde o mistério.

s.d.

Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993).





3 de junho de 2011

OLHAR

(Imagem tirada daqui)


O assombro! Bons deuses! Que fizestes vós Homem dos homens?

A manhã nasce imperturbada dos cunhais da desdita.

Um olhar, um só olhar… fero, profundo, insano e lasso.

Um tom cinza como as escarpas da desordem…

Dois em um de nós são só carne, ossos e solidão.


25 de maio de 2011

PEDIU-ME

(GOYA)


Pediu-me… para lá dos olhos vazios e dos gestos aniquilados - escreve um poema. Disse-lhe que não, que a inspiração era medusa traiçoeira e que um homem, não é poeta em todas as horas.

Com dor, por sobre todas as maleitas do seu corpo, levantou-se, encarou-me os olhos, como quem encara a morte de frente e sem medo disse-me – escreve um poema!

Caramba! Hoje não! Talvez amanhã, porque as palavras não jorram despidas e frenéticas em todas as horas!

Prostrou-se ante mim, gemendo, como um servo a seu senhor e disse – escreve um poema.

Dei meia volta e saí… voltei um minuto depois, com a vergonha estampada na cara e cravada na alma, ajoelhei-me a seu lado e entreguei-lhe um poema. Nunca deve um Homem sofrer para receber aquilo a que tem direito!



5 de abril de 2011

TEMPESTADE

(REMBRANDT - TEMPESTADE NO MAR DE GALILEE)


Quebrantam-se os alicerces em sintonia com o eco

das vozes escorridas da devassa humana.

Bons deuses! Esses que se procuram a cada vaga

da insónia desdita da fé dos homens.

O que restará passada a maleita do tempo?

E nu vagueias, receoso da sombra que te veste.

Como se também fosse obra da Tormenta levá-la.

Homem, o lamento não inflama a barca,

nem tão pouco lhe serve de ancoradouro

passadas que sejam as volúpias das Fúrias.

Aos deuses, nem o grito mais fero, lhes ressoa

quando, passada a tempestade é pelo lodo

que anseias para enroupar a nudez de Ser.

Com que ficamos depois da tempestade?

Com três vinténs de cacos e a obra por iniciar.

E os deuses? Oh Homem, esses, já têm a obra feita!



27 de janeiro de 2011

SÍMILE



(Imagem retirada daqui)
 
 
Uma gota… a insanidade total de um vítreo férreo quebrado no olhar.

As volúpias zurzem atónicas nos calços do sentido e assim…

Um ponto. A cruzada entre o ceio dos enxames e a gente.

Há sempre espaço nessa máscara titubeante de entrelinhas do passado…

Tal qual vaticínio dos deuses em baloiço de criança.

Desdita metafísica do desalojado de nós.

E no fim, ou, será inicio? O confronto com o chão.

22 de outubro de 2010

SILÊNCIO

(Imagem retirada daqui)


SILÊNCIO. Sem voz? SILÊNCIO. Sem palavras? SILÊNCIO. Sem imagens? SILÊNCIO. Sem o que sou? SILÊNCIO. Sem o que sinto? SILÊNCIO. Sem vida? SILÊNCIO. Mas porquê? SILÊNCIO.


SILÊNCIO. É o tudo que existe quando os dias são dias, a vida uma manta de retalhos esquecida a um canto e a história um pedaço de papel.



29 de setembro de 2010

SÃO ROSAS SENHOR!





São Rosas Senhor! São Rosas!

Excomunga-se a verdade pelas sobras do que há-de vir.

Não há sopé que desdenhe mais as entranhas

Que o bicho foragido do ventre.



Mas são Rosas Senhor! São Rosas!

Uma parafernália de entrelinhas

Que se desunham num lusco-fusco fugidio.

Coalho em sentido defronte ao quartel.



Pelos céus! São Rosas Senhor! São Rosas!

Podem ser sem essência e nuas de rubor…

Mas blasfema quem disser o contrário.

Sem escória seriam apenas Homem.



Que dizer Senhor? São Rosas!

Negras como as ladeiras enxertadas

Que desgranam os lampinhos

Mal principia a manhã.



Mas Senhor são só Rosas!

Perdoai-lhes as maledicências

As cruentas ginásticas morais

As tortuosas escadarias de poder

E verás Senhor se não são só Rosas!

24 de setembro de 2010

RAPAPÉ


(Henri-Émile-Benoît Matisse)



Há fado na voz e nesse monte de cordas caído aí ao canto

Cornucópias tímidas percorrem essa luz de silêncio

Que poisas-te passava pouco mais das quatro da tarde.

Companheiro, a tua jorna não é tão distante

Que não caiba nela um abraço forte!



As toupeiras fogem já da terra arenosa

Aquela da qual falámos horas a fio nas tardes de enfadonho

São bichos esquisitos estes que se movem às cegas.



A vida tem destas coisas, ora se pulula de um quê

Ora se branda aos ventos pelas mesinhas da avó.

De igual só os sapatos que trago hoje

Porque esses não os mudo eu que é desperdício.



Das cantorias e dos versinhos sobra sempre uma companhia.

Se não lha arremata o tinto do velho Baco

Arremato-a eu que de calado só quando o sono me leva.



Já se faz tarde, foi de gosto chegar a este canto

A que chamas corpo e ao qual dás aprumos de rei.

Saudinha da boa e calma nos calcanhares

Que o tempo não anda para marés baixas.

 

16 de setembro de 2010

SÓ POR HOJE


(Vergílio Ferreira - imagem retirada aqui)


Évora, 25 de Fevereiro


   Mais um conto - «A Palavra Mágica». Mas com que dificuldade! Todavia consegui desabafar desta saturação de palavras com que os jornais, a rádio, as conversas envenenam o ar. Cansado, caramba! Sobretudo cansado de querer acreditar. A cada canto, um sistema perfeito de vocábulos. Ao princípio era o Verbo e o Verbo se fez terrorismo. Não me falem em Razão. Falem-me em crenças, em mitos, em paixões. Mas ninguém tem essa coragem. Pegam numa pedra e lapidam-na de geometria. Depois fala-se na geometria, no rigor das linhas, na fatalidade da exactidão. Só não falam na pedra, bons deuses! Na pedra, que é a verdade fundamental.

Não me peçam hoje lágrimas para aquele que morreu
e pensou.
Não me aluguem o dó, que não está disponível.
Nem me peçam que no sangue do que só acreditou
e morreu,
eu beba aquela coragem que sinceramente não tenho.
Fé por fé basta-me esta de acreditar hoje, só hoje,
que afinal não vale a pena.
Amanhã talvez esqueça
ou perdoe.
Mas por hoje, céus, emprestai-me
essas tubas dos arcanjos do fim do mundo,
ou a trombeta castelhana d'Os Lusiadas,
ou qualquer coisa que berre.
Não tenho ideias a dizer
nem sonhos, nem ódios nem promessas.
Tenho só um grito, mas um grito longo,
horrendo, fero, ingente e temeroso
que me diz todo
por hoje,
só por hoje.


In Diário Inédito, obra do Espólio de Vergilio Ferreira, Editora Quetzal


Hoje e só por hoje, estas palavras, este Homem e este som, fazem-me eco nos sentidos, na alma e na razão.

31 de agosto de 2010

PLACITUDE








E amanhã talvez te soltes com o olhar vago das maresias

Hoje não que é tempo de labuta

E a inquietude fugidia joga o enlace do imberbe

Talvez condenes os homens pelo semblante das vias

Mas nunca pelas fugas dos seus deleites

Amanhã quem sabe chegarás ao que resta de soltura

Como utopia nodulosa de verdura

Visco ardente de sangue alma e frontaria

Mas hoje não que é desperdício de sentido

E chegará o tempo em que sem mãos

Julgarás os céus pelo momento perdido

Mas hoje não que é hora da cozedura do pão

3 de agosto de 2010

TODOS SABEMOS

(QUINO)



“Todos sabemos que somos animais da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominídeos, do género homo, da espécie sapiens, que o nosso corpo é uma máquina com trinta biliões de células, controlada e procriada por um sistema genético que se constitui no decurso de uma longa evolução natural de 2 a 3 biliões de anos, que o cérebro com que pensamos, a boca com que falamos, a mão com que escrevemos, são órgãos biológicos, mas este conhecimento é tão inoperante como o que nos informa que o nosso organismo é constituído por combinações de carbono, de hidrogénio, de oxigénio e de azoto.” Edgar Morin in “O Paradigma Perdido”, Publicações Europa-América.

Todos sabemos que somos uma máquina biológica, sabemos enfim, que somos uma parafernália de dados, fórmulas matemáticas e geométricas, pura física, ou, química, conforme o estudo da ciência com que mais se engrace.

Sim, todos sabemos isto, basta que se tenha tido um pouco de atenção na escola, ou, na falta dela, se olhe o homem de soslaio e se veja em dia de tédio as notícias na TV, sempre muito cheias de verdades e descobertas estatísticas, nos dias em que, por mero acaso, não existe uma catástrofe para anunciar.

Mas de fundo, o que sabemos nós sobre o Homem?

A esta pergunta, dão respostas a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia e outras tantas ciências sociais e humanas. Tudo sempre feito de forma muito escolástica, rígida e vestida de proficiência.

E depois há o assombro, de nada disso ser verdade, de as ciências terminarem no frio glacial do laboratório, ou, no enfadonho do papel, e a vida passa aqui ao lado, tão viva, tão quente…

Hoje, ao ler o “Diário Inédito”, obra do espólio de Vergílio Ferreira, saltou-me à alma este trecho: “Eu SEI o mistério de certos instantes, sei-o porque o cheiro, o palpo, o vejo com o branco dos olhos abismados. Eu saboreio com um sabor diferenciado de provador de vinhos ou de tabaco, a realidade íntima de um momento de amor, de paz, de guerra odienta, a tristeza coalhada de um luar de Setembro, o recorte álgido de uma lua de Março, o assombro hiante de um nevão caindo por manhãs de Dezembro. É um segredo de estar implicado nesses instantes, passivo e aberto. Um segredo de uma tristeza ou alegria, ou amor ou ódios implícitos, coados da distância, fina e leve, presente e antiga. Tudo tem um mistério nodal. Achá-lo é uma arte.”

E todos sabemos, com, ou, sem jornais, vestidos de ciência, ou, nus de palavras que somos mais, muito mais.

A questão com que termino é simples e de todos os quadrantes: o que fazemos com o que sabemos?

28 de julho de 2010

DIZEM-ME




Dizem-me, sou presente com armadura de passado.

Ah! Quem dera que a lógica simplista fosse assim, bucólica

Como o milhafre em vaga de horizonte.



Mas as vielas da vida contam outros andrajos.

A pele que nos cobre é sempre mais que a lisura do mármore

E os passos, certos ou errados, nunca são iguais.



Dizem-me, o coração vive de lógicas matemáticas.

Como se ele não fosse arritmia e bombear,

Mas relógio servo e coloquial.



Podem-me podar as verdades á laia de verdade maior.

Podem me toldar os pensamentos à força de um pensamento maior.

Mas no coração não me bolem, sou ser construído!

23 de julho de 2010

UMA HIPÓTESE E DUAS CORRENTES

(DESENHOS DE LEONARDO DA VINCI)


Um dia vão escrever-me a biografia, com atestados e certidões, coisa imponente. Vão verificar que existi á força bruta de um assento de nascimento e com a certeza de um óbito.

Para talhar o trabalho, sempre tão difícil de descrever o caminhar de um Homem, escrevam apenas: nasceu, aprendeu a andar e um dia pereceu exausta de tanto pensar; é o que basta, as entrelinhas ditarão o resto.



____ //____



Penso com todos os fios da razão

E logo ali ela se me perdeu.

Escuto a verdade com toda a força

Do meu ouvir e logo ali ela se silenciou.

Vejo o sonho com toda a utopia

De se sonhar e logo ali ele se quedou.

São assim escrupulosas as artérias de se ser.

Esgrimem argumentos os pensantes

Mas também eles são agnósticos.

Com que ficamos depois da tempestade?

Com os cacos do que não se lhe levou as águas da tormenta.

Chega? Talvez… mas quem me pediu para existir?



____ //____



Toda a metafísica se me dói

Como uma linha de Verlaine em Pessoa.

Toda a existência se me corrói

Como uma linha de Sartre em Vergílio.

E são assim construídos sentidos ausentes

Com a força pura do pensar

Como esses ossos dormentes em que me deixo estar.

Há laia de me ler nas palavras dos outros

Vou-me adocicando em sonos poucos

Mas toda a pureza do Ser vai aos outros buscar

A certeza de Ter águas em alto mar.

21 de julho de 2010

VER

(O HOMEM DE VITRÚVIO - LEORNADO DA VINCI)


"Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objectividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático par excellence." - Crepúsculo dos Ídolos de  Friedrich Nietzsche.



Escutar e ver não é tão fácil como aparenta ser.

Tudo bem, olhos e ouvidos tomos possuímos, é um dado, em regra, adquirido à nascença.

A questão que coloco é: será que todos nós vemos e ouvimos correctamente? Dito de outra forma, passado o impulso inicial e ante um determinado acontecimento, realmente vimos e ouvimos, ou, limitamo-nos como caixa formatada a reagir?

Por experiência própria, sei bem que nem sempre ouço e vejo, retiro, muitas das vezes, conclusões baseadas em puras reacções mecânicas, que mais não são do que mecanismos internos de defesa.

Outras vezes, a reacção mecânica, nada tem a ver com a defesa, antes com presunções e ideias pré feitas.

O que nos diz Nietzsche, no texto supra transcrito, é que, ao que vemos, podemos à senda da nossa vontade, não reagir, de acordo, não com o que vemos, mas com o impulso que nos provoca o que vemos.

A tendência, direi quase que natural, é a da critica, há como que um estender exagerado de considerações sobre o que vemos, e isso denota-se, particularmente, quando o que vemos nem sequer tem suma importância, ou, quando o que vemos é algo novo e desconhecido.

E se nós, com a nossa vontade, retirássemos o impulso inicial crítico e deixássemos as ideias pré-concebidas fora da visão, o que é que nós, realmente, víamos?

Toda a arte pressupõe duas coisas: inspiração e vontade, mas dessas duas coisas nada se materializaria sem um contínuo labor.

O dia-a-dia de um Homem, não é muito diferente da arte, quando ele toma para si, a feitura da sua obra.

19 de julho de 2010

ESCOLHA

(O RAPTO DE  GANIMEDES - MICHELANGELO)




“Está sentada numa cadeira de rodas. Tem as pernas cortadas pelos joelhos. E entretanto a morte vai-a trabalhando no que lhe resta ainda vivo. Havia uma operação a retalhar essa morte, mas os médicos hesitam no receio de lhe ajudar o trabalho. E enquanto o fim não vem, ela pinta. E ri com os amigos. E inventa festins para celebrar com eles a alegria que perdura. Breve talvez tudo acabará. Mas como o apóstolo, ela poderá perguntar ó morte, onde está a tua vitória? E a morte levá-la-á, enfim, mas acabrunhada de vergonha e de silêncio.”Vergílio Ferreira in “Escrever”, Bertrand Editora.


A vida é o maior dom de um Homem, e é-o porque sem ela, no mundo a que chamamos “real” nada poderia existir, ser construído e perpetuado.

A maioria de nós, não tem o mínimo conhecimento desse incrível dom que é a vida, caminha no mundo com lamentos, de coração e olhar vazios, clamando dos Deuses amparo para as suas dores.

Há aqueles ainda que reclamam o seu direito a escolher entre estar vivo e estar morto, bradando aos ventos que a vida e a morte não podem ser escolha de um qualquer Deus.

Outros há ainda que, vivem por viver, estão cá, que se há-de fazer… continuar a passar os dias e esperar o que tiver que acontecer a seguir.

Os tempos de hoje são assim a modos que amorfos, sem chama, fugidios nas horas de prazer, penosos e longos nas horas de dor. Como se o facto de se respirar fosse um fardo duro de suportar. Fizeram-nos assim, que se há-de fazer? É o que dizem…

Mas quem é que os fez assim? Acaso a vida de um homem é diferente da do outro? Não respiram os dois? Não é carne, ossos e sangue o que compõe, os dois?

A nossa sorte é que os há, a quem a vida é mais que um longo suspiro, mais que um bramir de ossos, ou, um ai jesus, é uma bênção, dádiva inigualável de se ser, de se existir.

Para nossa salvação, há quem não pergunte porque tem vida, quem agarre nela e a sinta e a use em cada poro do seu ser, há quem não vigie o fim dos dias para mudar, para crescer, para ir mais além e roubar dos céus pedaços de infinito, há quem não aguarde os desígnios dos deuses para rir e há quem não se preocupe com o chegar da morte, porque apreendeu a sentir a sua vida, porque usou cada segundo do seu dom. E a estes o que poderá a morte fazer, senão os levar silenciosa?

E a todos os Homens foi dito: a escolha é tua.

15 de julho de 2010

NÃO TE ESCONDAS



Não te escondas…

Há labirintos como sedes de vitórias

Nenúfares naufragando á costa mar

Espaços vazios sem sentido para parar

Libelinhas frenéticas na roda dos sentidos

Há marcas de néctar nas glórias

Como espadas de histórias nos mitos perdidos

Não te escondas…

Dá um balanço em direcção ao infinito

Solta as candeias avessas aos auguros

Trepa, rebola e recolhe esses muros

Nada de nada te impede de rir

Luz que trespassa o pequenito

E vem de longe ver-te partir

Não te escondas…

Há chama nas clarabóias da vida

Mastro de velas ao luar

Pirilampos sacudindo o ar

Sonhos livres de fraquinhos

Cabelos ao vento em cela sentida

Grilos gritando aos pouquinhos

 
Não te escondas…

As searas brotam selvagens

Ante a cozedura dos avatares

Chega, não lamentes os azares

Que o caminho se faz caminhando

Sem a ceifa das vagens

Mas com o clarear do teu mando.

Não te escondas, entra e deixa-te ficar.


8 de julho de 2010

ONDE ESTÃO AS FÚRIAS QUE AS NÃO ENCONTRO?


(O REMORSO DE ORESTES - WILLIAM-ADOLPHE BOUGUEREAU)


Onde estão as Fúrias que as não encontro?


Jornada de melancolia desordeira

Glória, sede e vida inteira

Pára-raios, desova de ideia

Ais do que me dou no meio da cheia.



Onde estão as Fúrias que as não encontro?

Barco de papel feito ponto pontual

Como osso de Aquiles no carnaval

Traquinices de plebeia no reino do mal

Nada é nunca de fissura igual.



Onde estão as Fúrias que as não encontro?

Bola, bolinha sempre tão pequenina

Seus olhos como os da menina

Brincam de mentirinha

E choram de manhãzinha.


 
Onde estão as Fúrias que as não encontro?

Navegadores de mares ingovernáveis

Suspiro… as parcas são indomesticáveis

Gritos perdidos,  deuses afáveis

Mentira das mentiras, verdades inigualáveis.

Onde estão as Fúrias que as não encontro?